Victor Hugo Siqueira recebe desafio de salvar casarão em ruínas de Pelotas
Um conhecido meu, Victor Hugo Siqueira, foi designado pelo judiciário para administrar um casarão em ruínas, erguido em 1871 a mando de um charqueador de nome Felisberto Braga, para ali este residir com a família. A tarefa de V. é salvar o imóvel da destruição total e, se possível, revivê-lo. Vai ter trabalho pesado. Em seu interior, o imóvel, hoje interditado e pertencente ao Clube Comercial, acumula o que lembra os escombros de uma guerra. Como se tivesse sido bombardeado, o que, em sentido figurado, de fato foi. O palacete original foi vendido ao Comercial 17 anos depois de sua inauguração. Foi vendido em 1888, coincidentemente no mesmo ano em que o Império decretou o fim da escravatura no Brasil. Como a riqueza dos charqueadores dependia do trabalho de africanos feitos escravos, manter o casarão provavelmente se tornou caro. Perdeu o sentido. Admiro pessoas que encaram empreitadas à primeira e segunda e terceira vistas impossíveis. Mas os sinais indicam que V. é capaz de fazer algo pelo prédio, alguma coisa. Além de acumular funções relacionadas à cultura, como presidente de outro Clube, o Caixeiral, e como presidente da Casa de Cultura, alojada no Caixeiral, ele é simpático de um modo que até o mais azedo dos sujeitos gosta dele: o que sempre conta na hora de captar fundos para recuperar um patrimônio há muitos anos abandonado: restaurá-lo e atrair sócios dispostos a pagar mensalidades para usufruir de benefícios longe o bastante para sequer ser imaginados. Na verdade, V. terá trabalhos de dois hércules operando 24 horas por dia em regime de cooperação. Mas é preciso ser otimista para acreditar na vida, e acho que V. é. Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Muito mais sorte do que tiveram os escravos do período do charque. O chamado Período do Sal.
