O diabo veste Prada 2 decepciona ao romper a nostalgia do original
O diabo veste Prada 2 me pareceu desnecessário. Se o primeiro filme é perfeito, fechado a vácuo, o segundo é selado com bolhas de ar. É um filme visto com saudade, mas que nos decepciona pela nostalgia de um momento impossível de reviver. Foi bom rever a turma? Gostei de rever Stanley Tucci (Nigel), o ator com cara de amendoim, e os demais. Porém, achei triste ver a destruição das lembranças do filme original, por conta acima de tudo do envelhecimento real das atrizes, principalmente o de Anne Hathaway (Andrea), assistente de Meryl Streep, a implacável Miranda. Cadê aquele frescor da Hathaway de 20 anos atrás? Ela simbolizava o desejo da moça antiga de ‘subir ao altar’. O tempo passa pra todos, óbvio. Mas, em matéria de cinema, uma coisa é rodar uma sequência em pouco tempo em relação ao primeiro, como ocorreu com O poderoso chefão II, com os atores com idades próximas das de quando atuaram no I. Outra é rodá-la 20 anos depois, com os atores bem mais velhos. Fica uma sensação desagradável de algo que estava intacto e se quebrou. Senti o mesmo quando vi o filme francês Um homem, uma mulher 20 anos depois: melancolia. Quando O diabo 1 foi lançado, em 2006, a internet e as redes sociais não tinham o poder de hoje. Revistas impressas de moda, como Harper’s Bazaar e Vogue, ainda eram templos sagrados. Neste 2026, depois que há muito as redes começaram a abocanhar a maior parte das verbas publicitárias, as revistas impressas se viram sob ameaça não só como negócios, mas como símbolos da progressão cultural que transformava em arte vestimentas e acessórios. Tais revistas ainda existem, mas não mais com a autoridade, personificada na figura de Miranda, não mais com o glamour de antes. É desse esfarelamento que trata, no fundo, O diabo 2, ao denunciar a decadência dos altares estéticos a que se havia chegado pelo refino das experiências sensoriais — decadência esta causada pela ditadura do clique na internet, como diz o filme. O que antes era uma referência sólida, fruto de antenadas cabeças cultas, deixou de ser. Perdeu-se na vulgaridade ignorante do clique digital, que passou a ditar, sem critério... Link na bio
